Morales e Velenik

Overnight Generation
Texto Juan Esteves

As guerras são acontecimentos permanentes – até mesmo os conflitos que assistimos nos períodos de exceção se constituem em uma guerra. São multirraciais, internacionais e multi-ideológicas. A mais desumana é aquela fraticida, que é, acima de tudo, hipócrita, eis que coloca a religião como escudo do sectarismo de poucos, matando muitos. Foi assim em Sarajevo há mais de duas décadas.

Italo Morales e Martina Velenik  promovem a representação de um estado de espírito decorrente desses conflitos. Por serem essencialmente ontológicas, suas imagens não se expressam plenamente ou diretamente, mas alcançam um breve resultado -tão transitório e momentâneo , como os fragmentos de paz que seus sobreviventes podem desfrutar.

A geração que surgiu praticamente de um dia para o outro, em meio as guerras,  é na ideia dos fotógrafos, a prova da possiblidade da coexistência.

No entanto ela é graficamente encenada na indiferença de seus protagonistas e até mesmo na ausência física destes. A forte tendência monocromática reforça a sensação de lentidão e desprendimento da realidade. Se seguirmos a proposição de Umberto Eco, de que é a cultura e não a guerra que cimenta a identidade européia, a proposta deste ensaio se reveste em plena metafísica.

A Sarajevo de Morales e Velenik é uma cidade que, se não foi morta pela guerra, vem sofrendo uma doença que é transmitida de geração para geração. A imagem fotográfica é disseminada pelo mesmo processo, uma transmissão  intrínseca à mídia. Ambos se unem na tentativa de demonstrar visualmente tal conceito. Poderíamos até mesmo pensar em um novo romantismo, mas suas definições disponíveis são de múltiplas orientações. Melhor então, pensar que estas se tornam mais rupturas estéticas do que simples imagens melancólicas, menos racionalistas e mais poéticas, pois são capazes de nos tocar verdadeiramente.

Juan Esteves

São Paulo, abril 2012

 

 

Overnight Generation é um projeto ainda em andamento dos fotógrafos Italo Morales e Martina Velenik que tem como objetivo investigar as heranças e a memória da guerra na geração de jovens de Sarajevo que viveram com esse conflito quando crianças.

 

English Version
About Italo Morales and Martina Velenik’s “Overnight Generation”

Wars are permanent events − even the conflicts we have seen in the periods of exception constitute a war. They are multiracial, international and multi-ideological. The most inhuman one is the fratricidal war, that is, most of all, hypocrite, which puts religion as a harness to the sectarianism of few, killing many. It had been this way in Sarajevo for over two decades.

Italo Morales and Martina Velenik promote the representation of a state of mind resulting from these conflicts. Because they are essentially ontological, their images do not express themselves fully or directly, but come to a quick result − so fleeting and momentary, as the peace fragments that their survivors can enjoy.

In the photographers mind, the generation that emerged almost from one day to another, in the midst of wars, is a proof of the possibility of coexistence.

However, it is graphically performed in its protagonists’ indifference and even in their physical absence. The strong monochromatic trend reinforces the slowness and detachment of reality feeling. Following Umberto Eco’s proposition, in which it is not war, but culture that consolidates European identity, this essay’s proposal is covered in full metaphysics.

Morales and Velenik’s Sarajevo is a city that, if not killed by the war, has been suffering from a disease transmitted from generation to generation. The photographic image is widespread through the same process, an intrinsic transmission to the media. Both are united in an attempt to visually demonstrate the concept. We might even think of a new romance, but its available definitions have multiple orientations. Better, then, to think that these become more like aesthetic ruptures than just melancholic images, less rationalist and more poetic, since they can truly touch us.

Juan Esteves

São Paulo, abril 2012

 

Versión en Español
Acerca de “Overnight Generation” de Italo Morales y Martina Velenik

Las guerras son hechos permanentes − incluso los conflictos se ven en los períodos de excepción constituyen una guerra. Son multirraciales, internacionales y multi-ideológicos. La guerra más inhumana es aquella fratricida que es, por encima de todo, hipócrita, la que pone la religión como un escudo del sectarismo de pocos, matando a muchos. Así ha sido en Sarajevo durante más de dos décadas.

Italo Morales y Martina Velenik fomentan la representación de un estado de ánimo derivado de esos conflictos. Debido a que son en esencia ontológicos, sus imágenes no se expresan total o directamente, sino llegan a un breve resultado − tan transitorio y momentáneo, como los fragmentos de paz que los supervivientes puedan disfrutar.

En la concepción de los fotógrafos, la generación que surgió casi de un día al otro, en medio de las guerras, es una prueba de la posibilidad de coexistencia.

Sin embargo, se escenifica en forma gráfica en la indiferencia de sus protagonistas e incluso en su ausencia física. La fuerte tendencia monocromática refuerza la sensación de pesadez y el desapego de la realidad. Si nos atenemos a la propuesta de Umberto Eco, de que no es la guerra sino que la cultura la que consolida la identidad europea, el propósito de este ensayo se recobre en plena metafísica.

A Sarajevo de Morales y Velenik es una ciudad que, si no ha sido muerta por la guerra, ha estado sufriendo de una enfermedad que se transmite de generación en generación. La imagen fotográfica se difunde a través del mismo proceso, una transmisión intrínseca a los medios de difusión. Ambos se unen en un intento de demostrar visualmente el concepto. Podríamos incluso pensar en un nuevo romanticismo, pero sus definiciones están disponibles en múltiples orientaciones. Así, es mejor pensar que estas se hacen más unas rupturas estéticas que simples imágenes melancólicas, menos racionales y más poéticas, porque realmente nos pueden tocar.

Juan Esteves

São Paulo, abril 2012