Leandro Souza
Guarda este retrato
Texto Sabrina Moura
Em suas múltiplas vidas, as imagens fotográficas ultrapassam a espessura do tempo em que são realizadas para encontrar novas leituras e apreensões em outros contextos. Com a série de imagens Guarda este retrato, o artista Leandro Souza revisita seus arquivos pessoais, utilizando como matéria-prima fotografias de família encontradas “em caixas no fundo de um armário à mercê do tempo”.
O interesse de fotógrafos-autores por práticas amadoras ocorre desde os anos 1930, quando Walker Evans ecoou a espontaneidade de registros do cotidiano em suas composições sobre o sul norte-americano. Além de sua assimilação como linguagem, a fotografia anônima e amadora integra o universo artístico por meio de reapropriações e indagações sobre seus usos sociais, como no caso de artistas contemporâneos, como Rosângela Rennó.
Simultaneamente a incorporação das práticas vernáculas ao campo autoral, críticos e acadêmicos se dedicaram a uma série de estudos sobre o tema na história da fotografia. Entre eles, o livro Photo Trouvée (2006), ou “fotografia encontrada”, de
Em Guarda este retrato, Leandro Souza recorre especificamente a essas “fotografias encontradas” para investigar o seu revés, o outro lado da moeda. Ao concentrar-se no verso das imagens recuperadas em seu arquivo pessoal, o artista recria e indaga os seus sentidos primeiros. “Até onde as identificações no verso destas fotografias refletem quem são aquelas pessoas? Quem é Daniel ou Mario? Quem mais os representa, suas imagens ou os nomes gravados no verso destas?”, pergunta o artista.
Mas, é possível que as questões mais importantes não façam referencia às verdades fixas e imutáveis de suas representações, ou tampouco as identidades dos seres fotografados. Ao invés de um lastro a impor confirmações, a palavra agrega narrativas improváveis à essas fotografias-objeto; elementos para que o observador componha seus cenários particulares, permitindo um retorno à memória de seus próprios arquivos pessoais.
Aos seus nomes, datas e pequenas declarações, somam-se os contornos esmaecidos das imagens que não vemos diretamente, contribuindo para uma adivinhação infrutífera de seus personagens. Ora, para desvendar seus campos quase-visíveis só nos resta, portanto, investir tais imagens de novos significados e recorrer às nossas próprias ficções.
por Sabrina Moura

“Guarda este retrato é uma frase entre as várias que povoam o versos de diversas fotos que recuperei de um arquivo familiar. Fotos que estavam guardadas em caixas no fundo de um armário a mercê do tempo e que desafiam a memória criando e recriando imagens e sentimentos a partir das palavras que povoam os versos destas imagens. Até onde as identificações no verso destas fotografias refletem quem são aquelas pessoas? Quem é Daniel ou Mario? Quem mais os representa, suas imagens ou os nomes gravados no verso destas?
Nesta série as palavras aparecem como um registro que força e reforça a memória imagética registrada pela fotografia. As fotografias são refeitas partindo daquilo que marca seus versos: textos e marcas da passagem do tempo que juntam-se ao indicio das imagens originais. Forma-se um diálogo entre imagem e texto nestes registros; entre foto e grafia. São Marios e Marias que, sem uma imagem nítida, aparecem como criação e recriação da memória através da passagem do tempo.” (Leandro Souza)
“Guarda este retrato” faz parte da série Reminiscências, que conta ainda com “Daquilo que vejo pela janela” (em progresso) e “do tempo que me viu passar”(vídeo instalação), do mesmo autor.
English Version
About “Guarda Este Retrato”
In their multiple lives, photographic images go beyond the dimension of the time in which they are took to find new perspectives and perceptions in other contexts. With the series of images Guarda Este Retrato (Keep this portrait), the artist Leandro Souza revisits his personal archives, using as raw material family pictures found “in boxes at the bottom of the closet at the mercy of time”.
The interest of photographers-authors in amateur practices occurs since the 1930′s, when Walker Evans resounded the spontaneity of the daily records in his compositions over the North American South. In addition to its assimilation as a language, anonymous and amateur photography integrates the artistic universe through reappropriations and questions about their social uses, as in the case of contemporary artists such as Rosângela Rennó.
Simultaneously, the incorporation of vernacular practices to the authorship field, critics and academics have engaged in a number of studies on the subject in the history of photography. Among them, the book Photo Trouvée (2006), or “found photography”, of Michel Frizot and Cédric de Veigy, compiles a series of anonymous images in an attempt todefine an “anthropology of the ordinary”, as the authors say.
In Guarda este Retrato Leandro Souza specifically refers to those “found photographs” to investigate his reverse, the other side of the coin. By focusing on the back of the images recovered from his personal archive, the artist recreates and asks his primal senses. “How far the labels on the back of these photographs reflect who are those people? Who is Daniel or Mario? Who represents them better: their images or the names engraved on the back of these?” asks the artist.
But it is possible that the most important issues may not refer to the fixed and immutable truths of their representations, neither the identities of photographed beings. Rather than a counterbalance imposing confirmations, the word adds unlikely narratives to these photographs as object; elements for the observers to compose their particular settings, allowing a return to the memory of their own personal archives.
In addition to their names, dates and small statements, are also the faint outlines of the images that we do not see directly, contributing to a fruitless guessing of their characters. Thus, to reveal their almost-visible fields, it only remains for us, thereby, to invest new meanings in these images and turn to our own fictions.
Sabrina Moura (São Paulo, 2012)
Versión en Español
En sus múltiples vidas, las imágenes fotográficas van más allá de la densidad del tiempo en que se toman para encontrar nuevas perspectivas e interpretaciones en otros contextos. Con la serie de imágenes Guarda este retrato, el artista Leandro Souza revisa sus archivos personales, tomando como materia prima fotos de la familia encontradas “en cajas en el fondo del armario a merced del tiempo”.
El interés por parte de los fotógrafos-autores en las prácticas no profesionales se produce desde 1930, cuando Walker Evans hizo eco de la espontaneidad de registros diarios en sus composiciones acerca de la región sur de Norteamérica. Además de su asimilación como lenguaje, la fotografía anónima y aficionada compone el universo artístico a través de reapropiaciones y cuestiones acerca de sus empleos sociales, como en el caso de los artistas contemporáneos, como Rosângela Rennó.
A la vez, la incorporación de las prácticas vernáculas en el campo de la autoría, críticos y académicos han participado en una serie de estudios sobre el tema en la historia de la fotografía. Entre ellos, el Photo Trouvée (2006), o “fotografía encontrada”, de Michel Frizot y Cédric de Veigy, recopila una gama de imágenes anónimas, en un intento de definir una “antropología de lo común”, como dicen los autores.
En Guarda este retrato, Leandro Souza se refiere específicamente a las “fotografías encontradas” para investigar su revés, la otra cara de la moneda. Al centrarse en la parte posterior de las imágenes recuperadas de su archivo personal, el artista recrea y cuestiona sus sentidos primarios. “¿Hasta donde las etiquetas en la parte posterior de estas fotografías reflejan quiénes son esas personas? ¿Quién es Daniel o Mario? ¿Quién los representa mejor: sus imágenes o sus nombres grabados en la parte posterior de estas?”, cuestiona el artista.
Sin embargo, es posible que los temas más importantes no se refieran a las verdades fijas e inmutables de sus representaciones, o tampoco la identidad de los seres fotografiados. En lugar de una carga que impone confirmaciones, la palabra añade narraciones poco probables a estas fotografías-objeto; elementos para que el observador componga sus entornos particulares, lo que permite un retorno a la memoria de sus archivos personales.
A sus nombres, fechas y pequeñas declaraciones, se suman los contornos borrosos de las imágenes que no vemos directamente, contribuyendo a una conjetura infructífera de sus personajes. Ahora, para desentrañar sus campos casi-visibles sólo nos queda, por lo tanto, invertir estas imágenes con significados nuevos y recurrir a nuestras propias ficciones.
Sabrina Moura (São Paulo, abril 2012)











