Garapa

Morar
Texto Diego Vidart

 

O escritor chileno Roberto Bolaño argumentou em uma conferência que “é preciso reler Borges mais uma vez”[1]. Era nessa situação em que eu me encontrava; tinha terminado recentemente uma edição antiga de Ficções, quando recebi pelo correio um envelope em um tamanho pouco comum com um conteúdo ainda mais incomum: seis folhas de um jornal de fotos, cujo título aparecia bem discreto apenas na penúltima página.

Aceitei participar do jogo sem saber se havia regras. Em Montevidéu, eu havia acompanhado o processo de criação da segunda fase do projeto Morar no qual o coletivo Garapa estava engajado desde 2007. Eu sabia que este periódico que caía agora em minhas mãos era uma das várias versões finais do trabalho criativo, e provavelmente a única à qual eu teria acesso direto.

Abri uma página aleatória e me deparei com duas fotos intensas, de uma cor vívida que preenchia uma página inteira e um conjunto de coordenadas. Por curiosidade, tomei a liberdade de calcular a distância que me separava desse ponto no espaço: eu estava 12 graus a mais ao sul e 10 graus a mais ao oeste. Achei que entendi, e com isso a jornada começou. O impulso me fez voltar ao começo e rever o projeto página por página, para participar, e em câmera lenta, da queda e do desaparecimento dos edifícios San Vito e Mercúrio.

A demolição dos edifícios me trouxe à mente Ireneo Funes, o personagem central do conto de Borges, Funes, o Memorioso, que faz parte de sua obra Ficções. Ireneo, jovem peão da cidade de Fray Bentos, sofreu uma mudança radical depois de cair de um cavalo. Nas palavras de Borges, com a queda, ele “perdeu a consciência; quando recuperou a memória, o presente era quase intolerável, de tão rico e nítido… agora sua percepção e sua memória eram infalíveis” [2]. No projeto Morar existe um antes e um depois do desaparecimento dos dois edifícios, onde cada fragmento de espaço e tempo é apresentado como peças de um quebra-cabeça por sua vez composto por diferentes camadas de significado, formando assim um intenso labirinto de imagens, distintas, mas estreitamente interligadas.

Com a linearidade da narrativa quebrada, o jornal se reconfigurou como um mapa complexo, que oferecia vários caminhos de uma viagem a um presente em constante mudança, mas sempre lá. Um conjunto de imagens-memórias que falam da dor de um passado perdido, de uma viagem nostálgica.

Andrés Neuman, depois de ir pela segunda vez a Montevidéu, escreveu que “quando viajamos para certos lugares, nos deslocamos para frente com o corpo e para trás com a memória. Assim, avançamos em direção de algum passado”[3]. Bem-vindos, então, a morar nesta viagem do Garapa.

Diego Vidart

Montevidéu, abril/2012


[1] Bolaño, Roberto. Entre paréntesis. Barcelona: Anagrama, 2004, p. 30.

[2] Borges, Jorge Luis. Ficciones. Madrid: Alianza Editorial, 1971, p. 125.

[3] Neuman, Andrés. Cómo viajar sin ver. Buenos Aires: Alfaguara, 2010, p. 39.

 

 

 

“Morar é um projeto que cria um arco de memória entre a existência e a desaparição dos edifícios São Vito e Mercúrio, emblemáticas construções demolidas recentemente na cidade de São Paulo.

A pesquisa iniciada em 2008 tem aqui sua continuação. Nesse segundo momento, em que os dois gigantes que estavam esvaziados há cerca de 3 anos são finalmente colocados abaixo, reconstituímos e reestruturamos fragmentos de memórias relacionados à nossa experiência naquele espaço.” (Garapa)

 

English Version

The Chilean writer Roberto Bolaño has argued in a conference that “Borges needs to be reread again”[1]. And I was in this very situation, had recently finished the reading of an old issue of Fictions, when I received in my mailbox an unusual size envelope with a content even more unusual: six sheets of a photo journal, which title appeared very discreet only in the next to last page.

I took part in the game without knowing if there were any rules. In Montevideo, I had kept up with the making process of the second phase of the project Morar in which the collective Garapa was engaged since 2007. I knew this journal that now was fallen into my hands was one of several versions of the final creative work, and probably the one to which I would have direct access.

I opened a random page and came across two intense photos, a vivid color that filled an entire page and a set of coordinates. Out of interest, I took the liberty to calculate the distance that separated me from that point in space: I was over 12 degrees south and 10 degrees further west. I thought I got it, so the journey began. The instinct took me back to the beginning to review the project page by page, to participate, and view in slow motion, the falling and the disappearance of San Vito and Mercury buildings.

 

The demolition of the buildings brought me to mind Ireneo Funes, the main character in Borges short story Funes, the Memorious, part of his work Fictions. Ireneo, a young rural worker in the city of Fray Bentos, underwent a radical change after a horseback riding accident. In the words of the author, on falling from the horse “he lost consciousness; when he recovered it, the present was almost intolerable it was so rich and bright… and now, his perception and his memory were infallible[2]”. There are in the project Morar one moment before and one after the disappearance of the two buildings, where each fragment of space and time is presented as pieces of a huge puzzle composed, in turn, of different layers of meaning, thus forming an intense maze of images, different, but closely linked.

With the linearity of the narrative broken, the journal is reconfigured as a complex map, offering multiple paths from a journey to a constantly changing present tense, but always there. A set of memory-images that speaks of the pain of a lost past, of a nostalgic trip.

Andrés Neuman, after going to Montevideo for the second time, wrote that “when we travel to certain places, we move forward with the body and backward to memory. Thus, any move we make is towards the past”[3]. So, welcome to live this journey of Garapa.

Diego Vidart
Montevideo, April/2012


[1] Bolaño, Roberto. Entre paréntesis. Barcelona: Anagrama, 2004, p. 30.

[2] Borges, Jorge Luis. Ficciones. Madrid: Alianza Editorial, 1971, p. 125.

[3] Neuman, Andrés. Cómo viajar sin ver. Buenos Aires: Alfaguara, 2010 p. 39.

 

Versión en Español

El escritor chileno Roberto Bolaño sentenció como corolario en una ponencia que “hay que releer a Borges otra vez”[1]. Y en eso me encontraba, recién terminado una vieja edición de Ficciones cuando recibí por correo postal un sobre de tamaño poco convencional con un contenido aún menos convencional: seis pliegos de un periódico visual, cuyo título recién aparecía de forma tímida en la penúltima página.

Me presté al juego sin saber si había reglas. Desde Montevideo había seguido el proceso de creación de la segunda etapa del proyecto Morar en el que el colectivo Garapa se había sumergido desde el 2007. Sabía que este journal que caía ahora en mis manos era una de las varias versiones finales del trabajo creativo, y posiblemente la única a la que yo tendría acceso directo.

Lo abrí al azar y me enfrenté a dos intensos retratos, un color pleno que cubría toda una página y una serie de coordenadas. Por curiosidad tomé la libertad de calcular qué distancia me separaba de ese punto espacial: estaba 12 grados más al sur y 10 grados más al oeste. Creí comprender y comenzó entonces el viaje. El impulso me hizo volver al principio y recorrer el proyecto página tras página, para participar, y en cámara lenta, de la caída y desaparición de los edificios San Vito y el Mercurio.

 

El derrumbe de los edificios me trajo la historia Ireneo Funes, personaje central del cuento Funes, el memorioso que Borges incluyó en el volumen Ficciones. Ireneo, joven trenzador de la localidad de Fray Bentos, sufrió un cambio radical luego de caer de un caballo. En palabras de Borges, al desplomarse “perdió el conocimiento; cuando lo recobró, el presente era casi intolerable de tan rico y tan nítido… ahora su percepción y su memoria eran infalibles”[2]. Hay en el proyecto Morar un antes y después de la desaparición de los dos edificios, en donde cada fragmento de espacio y de tiempo se nos presenta como piezas de un gran rompecabezas compuesto a su vez por distintas capas de significación, conformándose así un intenso laberinto de imágenes, separadas pero íntimamente interconectadas.

Rota la linealidad de la narración, el diario se reconfiguró como un complejo mapa que ofrecía múltiples recorridos de un viaje hacia un presente en constante cambio, pero siempre latente. Un conjunto de imágenes-memorias que nos hablan del dolor de un pasado perdido, de un viaje hacia la nostalgia.

 

Andrés Neuman luego de llegar por segunda vez a Montevideo escribió que “al viajar a determinados lugares, nos desplazamos hacia delante con el cuerpo y hacia atrás con la memoria. Entonces avanzamos hacia algún pasado”[3]. Bienvenidos entonces a morar en este viaje de Garapa.

Diego Vidart
Montevideo, abril 2012


[1] Bolaño, Roberto. Entre paréntesis . Barcelona: Anagrama, 2004, p. 30.

[2] Borges, Jorge Luis. Ficciones. Madrid: Alianza Editorial, 1971, p. 125.

[3] Neuman, Andrés. Cómo viajar sin ver. Buenos Aires: Alfaguara, 2010 p. 39.